quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Foi para ti...

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.
 Mia Couto
Fonte: aqui...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Economia: A fronteira da cultura...

Durante anos, dei aulas em diferentes faculdades da Universidade Eduardo Mondlane. Os meus colegas professores queixavam-se da progressiva falta de preparação dos estudantes. Eu notava algo que, para mim, era ainda mais grave: uma cada vez maior distanciação desses jovens em relação ao seu próprio país. Quando eles saíam de Maputo em trabalhos de campo, esses jovens comportavam-se como se estivessem emigrando para um universo estranho e adverso. Eles não sabiam as línguas, desconheciam os códigos culturais, sentiam-se deslocados e com saudades de Maputo. Alguns sofriam dos mesmos fantasmas dos exploradores coloniais: as feras, as cobras, os monstros invisíveis.

Aquelas zonas rurais eram, afinal, o espaço onde viveram os seus avós, e todos os seus antepassados. Mas eles não se reconheciam como herdeiros desse património. O país deles era outro. Pior ainda: eles não gostavam desta outra nação. E ainda mais grave: sentiam vergonha de a ela estarem ligados. A verdade é simples: esses jovens estão mais à vontade dentro de um video-clip de Michael Jackson do que no quintal de um camponês moçambicano.

O que se passa, e isso parece inevitável, é que estamos criando cidadanias diversas dentro de Moçambique. E existem várias categorias: há os urbanos, moradores da cidade alta, esses que foram mais vezes a Nelspruit que aos arredores da sua própria cidade. Depois, há uns que moram na periferia, os da chamada cidade baixa. E há ainda os rurais, os que são uma espécie de imagem desfocada do retrato nacional. Essa gente parece condenada a não ter rosto e falar pela voz de outros.

A criação de cidadanias diferentes (ou o que é mais grave de diferentes graus de uma mesma cidadania) pode ou não ser problemática. Tudo isso depende da capacidade de manter em diálogo esses diferentes segmentos da nossa sociedade. A pergunta é: será que esses diferentes Moçambiques falam uns com os outros?
(...)
O nosso continente corre o risco de ser um território esquecido, secundarizado pelas estratégias de integração global. Quando digo "esquecido" pensarão que me refiro à atitude das grandes potências. Mas eu refiro-me às nossas próprias elites que viraram costas às responsabilidades para os seus povos, à forma como o seu comportamento predador ajuda a denegrir a nossa imagem e fere a dignidade de todos os africanos. O discurso de grande parte dos políticos é feito de lugares-comuns, incapazes de entender a complexidade da condição dos nossos países e dos nossos povos. A demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. A facilidade com que ditadores se apropriam dos destinos de nações inteiras é algo que nos deve assustar. A facilidade com que se continua a explicar erros do presente através da culpabilização do passado deve ser uma preocupação nossa. É verdade que a corrupção e o abuso do poder não são, como pretendem alguns, exclusivas do nosso continente. Mas a margem de manobra que concedemos a tiranos é espantosa. É urgente reduzir os territórios de vaidade, arrogância e impunidade dos que enriquecem à custa do roubo. É urgente redefinir as premissas da construção de modelos de gestão que excluem aqueles que vivem na oralidade e na periferia da lógica e da racionalidade europeias. Para continuar com a leitura, aqui... ou aqui...

Mia Couto é Escritor moçambicano. Texto apresentado na Associação Moçambicana de Economistas (AMECON)

Sunset...

El Cóndor Pasa...

Angel...

A Paixão a Leitura: Um Agradecimento à Vida...

                                                                                   Aì: Fotografia de Arison Jardim
Como um súbito desejo, invade-me uma imensa necessidade de agradecer ao Universo por está me conduzindo nesta enigmática embarcação: a Vida!... Ser o piloto-condutor nesta arte de viver, muitas vezes  (para mim) representou – frente à crise em que, atualmente, se encontra a humanidade, e, em particular, a prática das relações humanas – uma busca constante ao passado das tradições... Deixando de lado os ensinamentos modernos quando dizem que viver é estar e usufruir o presente; eu sempre apoiava-me num pensamento da existência tradicional para o existir... Assim deixava de viver...

Contudo, tornava-se difícil – para mim – perceber que as minhas angústias e conflitos são então necessários à dialética do existir e que isto não implica deixar de lado o presente para voltar ao passado como refúgio aos conflitos internos... Agora é assumir a vida-presente e compreender os fundamentos da existência como contínua superação das tensões entre o meu eu sujeito e objeto, o Outro e o Mundo, a morte e a liberdade perante as intensas indagações interior...

Nessa perspectiva, assumo a realidade afirmando-me como a única forma que possa alicerçar uma compreensão: vivenciando e descrevendo um novo prisma ao meu Olhar (aqui já não te espero mais), porquanto permitirá me reconstituir na dimensão original para reconhecer em que ponto da existência real encontro-me e qual o mundo de significações eu construí... Aqui foi quando percebi e aceitei que somente através da leitura, principalmente, daqueles que trilharam o caminho da existência humana, podemos chegar a uma compreensão mais equilibrada sobre a existência do ser em si... Agora também compreendi o porquê ‘a leitura é a paixão civilizada mais antiga’ do Universo...

Enfim, é chegado o momento de agradecer ao Universo por ter permitido o cruzamento entre as trilhas da minha vida com as estradas dos peregrinos da escrita... Com isto quero agradecer, ao Coordenador Henrique Silvestre, pela minha condição de aluna especial no Mestrado de Letras; e por aí ter experimentado a competência da Professora Simone, que me devolveu a tolerância em permanecer sentada à sala de aula e fez-me perceber que a preguiça de corrigir nossos erros gramaticais é um desmazelo, descuramento, desalinho e desleixo imperdoáveis (reconheci minha condição de preguiçosa e até tentarei superar esta dor que atinge o cerne da alma humana: o erro, claro!)...

Sou muito grata por ter encontrado escritores que me permitem ouvir o som de suas palavras e sentir o sabor de suas escritas...

Minha gratidão também lá do fundo do coração aos autores dos blogs que me ensinam a arte de compartilhar sentimentos...

Meu eterno agradecimento por todas as leituras que domesticaram meus instintos selvagens, ao que possibilitaram minha Paixão pelo Conhecimento...

E, finalmente, os meus mais sinceros e profundos agradecimentos aos meus filhos e netos que me encaminham nesta arte de viver e sentir Amor na paixão do existir-mãe-avó...

Muito obrigada, Meu Senhor e Meu Deus, por esta Divina Luz do Universo que nos mobiliza e nos conduz ao Infinito Humano!...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Meu Eu em Você...

A quem pertence a Terra?...

                                          Aí: Fotografia de Arison Jardim
No Brasil se discute muito a questão da internacionalização da Amazônia ou a quem pertence essa rica porção do planeta Terra. Sem querer entrar nesta discussão que um dia retomarei, percebo que ela remete a outra ainda mais fundamental: a quem pertence a Terra?...
(...)
Poderíamos ainda responder: a Terra pertence aos seres mais numerosos que a habitam. Então ela pertenceria aos microorganismos - bactérias, fungos, vírus - pois constituem 95% de todos os seres vivos. Segundo o conceituado biólogo E. Wilson um grama de terra contem cerca de 10 bilhões de bactérias de 6 mil espécies diferentes. Imaginemos os quintilhões de quintilhões de micro-organismos que habitam a totalidade dos solos terrestres. Todos estes têm mais direito de posse da Terra do que nós, seja por sua ancestralidade, seja pelo número seja pela função de garantir a vitalidade do planeta.
(...)
Assim, a Terra pertence ao sistema solar que, por sua vez, pertence à nossa galáxia, a Via Láctea que, por fim, pertence ao cosmos. Ela é um momento de um processo evolucionário de 13,7 bilhões de anos,

Mas esta resposta não nos satisfaz pois ela remete a uma pergunta ulterior: e o cosmos a quem pertence? Pertence àquela Energia de fundo, ao Vácuo Quântico, ao Abismo alimentador de todos os seres, à Fonte originária de tudo. Esta é a resposta que os astrofísicos e cosmólogos costumam dar. E é correta. Mas não é ainda a última.

Cabe uma derradeira pergunta: a quem pertence a Energia de fundo do universo? Alguém poderia simplesmente responder: ela não pertence a ninguém, pois pertence a si mesma. Esta resposta é simplesmente uma não-resposta porque nos coloca diante de um muro. Ela nos remete à teologia, a Deus.

Mudando de registro e caindo na nossa realidade cotidiana e brutal dos negócios: a quem pertence a Terra? Ela, na verdade, pertence aos que detém poder, aos que controlam os rmercados, aos que vendem e compram seu chão, seus bens e serviços, água, genes, sementes, órgãos humanos, pessoas feitas também mercadorias. Estes pretendem ser os donos da Terra e dispõem dela como bem entendem.

Mas são donos ridículos pois esquecem que não são donos deles mesmos, nem de sua origem nem de sua morte.

A quem pertence à Terra? Fico com a resposta mais sensata e satisfatória das religiões, bem representadas pela judaico-cristã. Nesta Deus diz: “Minha é a Terra e tudo o que ela contem e vocês são meus hóspedes e inquilinos”(Lv 25,23). Só Deus é senhor da Terra e não passou escritura de posse a ninguém. Nós somos hóspedes temporários e simples cuidadores com a missão de torná-la o que um dia foi: o Jardim do Éden.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta a uma Senhorita em Paris...

Devo confessar que sou mesmo uma péssima leitora da Literatura Latina, pois eu desconhecia totalmente o escritor Júlio Cortázar: “Romancista e contista argentino nascido na Bélgica, no dia 26 de agosto de 1914 e falecido 12 de fevereiro de 1984 em Paris. Ele é um explorador da realidade e da irrealidade, assim renova a literatura latino-americana de língua espanhola. Sua obra questiona o convencional, procurando um conhecimento que dispense o auxílio da lógica”...

Bem, mas agora com esta Carta a uma Senhorita em Paris, ele fará parte da minha lista da Bibliografia dos Melhores entre os Melhores Escritores latinos... É só saborear o trechinho, a seguir, e serei compreendida:

“(...)... Você sabe por que vim a sua casa, a sua tranqüila sala festejada de sol. Tudo parece tão natural, como sempre, que não se sabe a verdade. Você foi a Paris, eu fiquei com o apartamento da Calle Suipacha, elaboramos um simples e satisfatório plano de mútua conveniência, até que setembro traga-a de novo a Buenos Aires e me atire a alguma casa onde talvez… Mas não lhe escrevo por isso, envio esta carta por causa dos coelhinhos, parece-me justo informá-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.

Quanto a mim, dos dez aos 11 anos há como um vazio insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança, quantas coisas se podem construir. Mas não com 11, porque dizer 11 é certamente dizer 12. Andrée, 12 que será 13. Então está o amanhecer e uma fria solidão na qual cabem a alegria, as recordações, você e talvez tantos outros. Está esta sacada sobre Suipacha cheia de aurora, os primeiros sons da cidade. Não acho que seja difícil juntar 11 coelhinhos salpicados sobre os paralelepípedos, talvez nem os notem... (...).”

Para continuar com a leitura do conto....

domingo, 7 de agosto de 2011

En mi niñez: realmente me gustó la Rayuela...

Estações das Horas...

Em plena ebulição da memória
Pelo mal que eu não fiz 
Por um bem que eu tanto quis

Sob a tempestade das escolhas

Os dias passam
As horas avançam
O planeta translada

E na rotatividade dos astros

Fiquei?... Fico?... Ficarei?...
Não sei!...
Porque o Tempo passa
Mas a história permanece...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sola...

Voltando à Vida...

Hoje, acordei de um Sonho, não exatamente aquele sonho que costumamos ter ao dormir, ou até mesmo aquele Sonho que alimentamos, durante toda uma vida, para nutrir nossas esperanças no viver, às vezes, até faço confusão com algum  fenômeno ótico... O meu Sonho, sempre foi diferenciado (um pouco multicultural, humanista, feminista, romântico, idealista etc.), ele é formado através duma fenomenologia ou uma visão de ótica, talvez... Pensei em recorrer às leituras sobre mitos e lendas, para compreender melhor o que dizem os estudiosos sobre a fenomenologia, no entanto eles também me confundem... Refleti sobre o meu primeiro livro de contos de fadas, presenteado por minha mãe (aos sete anos de idade) para eu deixar de ler os livros de bang-bang (os bolsilivros de faroeste que muitos tratavam das histórias políticas de Estado, mas eu adorava deixar minha tarefa  escolar de lado para lê-los)...

Aí foi quando me lembrei do inconsciente coletivo formulado por Carl Jung, que trata do efeito da ideologia duma cultura sobre a formação individual...; questiono-me: será que as ideologias dos contos de fadas nutriram e continuam a alimentar meus sonhos?... Não, talvez não seja exatamente isso, mas não consigo encontrar a resposta, pois isto implica tantas outras ideologias absorvidas pelo inconsciente coletivo e inseridas, enquanto cicatrizes, no meu viver para além dos contos de fadas...

Como, por exemplo, as ideologias sócio-políticas que vamos absorvendo, ao longo de nossas vidas, nos bancos educacionais: da antropologia ganhei uma marca sobre as divergências entre as sociedades matriarcais e patriarcais, pois de acordo com as teórias  antropólogicas de Mogan, e outros antropólogos, a sociedade matriarcal era aquela onde uma parte, se não a totalidade dos poderes legais dependiam da organização e do governo da família, cujas propriedades e heranças estavam sob o poder das mulheres, porém veio o patriarcado fundamentando-se na agricultura masculina, que substituiu a agricultura feminina da enxada (uma invenção revolucionária das mulheres), onde o conhecimento do processo da fecundação e do papel desta desempenhado pelo poder do homem contorna a separação definitiva das tarefas e das funções conforme o sexo; outra cicatriz profunda, em mim, é a da filosofia com seus clássicos intelectuais cheios de dramas, como Montaigne, o maior representante renascentista do ceticismo, pois sou tão cética quanto os sofistas do século V a.C (Xenófanes, Protágoras), daquele pensador ficaram-me as marcas das melancólicas dúvidas existenciais...

Porquanto quero concluir com a última marca ideológica, em meu ser Mulher, deixada pela formação política do Brasil colonizado... Entretanto lembrei que as dores dum sonho acordado não pertencem somente a minha pessoa; é uma longa história que vem de longe, e não são tão somente as mulheres que têm seus sonhos dilacerados pelas infâmias das injustiças... Recordei algumas leituras sobre Victor Hugo que foi exilado por ter se insurgido contra as intenções ditatoriais de Napoleão III... Ele foi um notável escritor com uma produção de obras-primas memoráveis; Os Miseráveis (1862), por exemplo, deixou Victor Hugo para a História, e depois que a França se tornou pacificada, ele foi considerado o símbolo da cultura, da humanidade e do Romantismo... A ver vamos: ainda há um rastro de Esperança...

Enfim, em nome do meu ser Rosa, sensibilizo-me com a história de vida daquela que – para mim – representa, em sofrimento e na vitória de seus sonhos, o nome da mulher brasileira: Cora Coralina!... Ela ficou conhecida por ter descoberto a poesia em sua velhice, publicou seu primeiro livro aos 76 anos... Foi pouco reconhecida pela literatura de sua época, nunca teve o incentivo no campo literário, escrevia escondida, além de ter sido muito julgada pela família por ter fugido para viver com um homem que já havia sido casado; ao ficar viúva trabalhou como vendedora de livros, e ao voltar para sua cidade, sobreviveu de doceira e assume o papel de poetisa... Enquanto mulher Cora Coralina nos incentiva à uma busca incessante em nosso interior, e nos dar a sabedoria de espalhar a felicidade partindo do que temos guardado em nosso Ser Mulher... Com o seu poema Não Conte pra Ninguém, ela ilumina-nos com uma bela contradição de ser e estar, um descontente e, ao mesmo tempo, o contente que sempre se encaminha à nossa frente:

Eu sou a velha
mais bonita de Goiás.
Namoro a lua.
Namoro as estrelas.
Me dou bem
com o rio Vermelho.
Tenho segredo
como os morros
que não é de adivinhá.
Tenho um amor
que me espera
na rua da Machorra,
outro no Campo da Forca.

Gosto dessa rua
desde o tempo do bioco
e do batuque.
Se você quiser, moço,
vem comigo:
Vamos caçar esse ouro,
vamos fazer água — loucos
no Poço da Carioca,
sair debaixo das pontes,
dar que falar
às bocas de Goiás.
Já bebi água do rio
na concha da minha mão.
Fui velha quando era moça.
Tenho a idade de meus versos.
Acho que assim fica bem.
Sou velha namoradeira.
Lancei a rede na lua,
ando catando as estrelas.

E, para afirmar a mulher forte que pulsa dentro de nós, veremos o poema Todas as Vidas com uma intensa sabedoria da simplicidade cotidiana:

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Finalmente, através destes poemas desejo representar as inquietudes que assolam o meu ser, e se a volta à realidade é uma tristeza ou uma alegria, não sei!... Mas a verdade mesmo é que ainda não cheguei a uma definição sobre o efeito do meu sonho (vivo e acordado) enquanto marca do inconsciente coletivo ou um fenômeno ótico, porém farei uma detalhada apreciação, posteriormente, ao descrever melhor aquilo que penso sobre as fábulas, os mitos, as lendas numa reapresentação pós-moderninha...

Todavia, traçarei os seguintes passos, para uma posterior definição, sobre a fenomenologia do meu sonho acordado, Voltando à Vida II: a) entender osMitos Gregos contados por Jean-Pierre Vernant; b) ainda com este ensaísta, descrever a relação entre Mito e Política, e por fim; c) detalhar a formação histórica da Amazônia através das Lendas regionais...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Of this tree...

Crônicas da razão louca...

Desde que as trapalhadas das vanguardas morreram, a literatura anda muito chata, convenhamos. E arte provida só de retaguarda (não confundir com glúteos) é uma arte muito da sem graça. Nunca, nem mesmo no tempo de Dickens, o mundo literário foi tão dickensiano. Há muito que as ficções literárias vêm sendo regidas pela causalidade, nenhuma novidade nisso, mas sempre me pareceu estranho que todos paguem sem maiores reclamações para se comover, para rir e chorar, mas não façam o mesmo para terem suas certezas colocadas em cheque. Aquele humor pregado por Oswald de Andrade virou bolor, e a refrega Augusto de Campos X Ferreira Gullar tem despertado umas saudades danadas do que não vivi.

Fato é que ninguém tem arriscado bulhufas, ultimamente, e editores, escritores e outros horrores andam adquirindo uns ares de responsabilidade que cairiam melhor em burocratas. Vide a defesa cada vez mais insistente de uma literatura “média” ou de gênero (pobre José Paulo Paes, cujo ensaio “Por uma literatura brasileira de entretenimento” geralmente lastreia o debate). Por tais e outras é que valorizo os paraísos bem bacanas do André Sant’Anna, essa variação brasileira de Daniil Kharms (ou Harms, dependendo da fonética) que cabulou as aulas dedicadas a ensinar o realismo na escola. O André é o melhor dentre todos nós, é claro, mas hoje vou falar de Kharms. Ler mais...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vou vivendo...

Meu momento de glória...

O songbook de Chico Buarque que tínhamos publicado havia sido um grande sucesso. Por conta do livro e das partidas de futebol ― minhas reuniões de trabalho com o Chico aconteciam sempre às segundas ou quintas, dias das peladas do Polytheama, das quais eu participava ―, acabamos desenvolvendo uma amizade muito gratificante. Pois certo dia, num momento bem à vontade, disse ao Chico que meu grande sonho seria publicar um livro de partituras de músicas de Tom Jobim e letras dele e de seus parceiros.

Na época, Tom Jobim era meu maior ídolo. É claro que eu adorava escritores como Guimarães Rosa, Drummond, Borges, Calvino entre outros, mas Jobim tinha carne e osso, e estava sempre comigo. Em qualquer momento de entusiasmo ou de melancolia eu podia escutar “Desafinado”,”Samba de uma nota só”, “Águas de março”, “Retrato em branco e preto”, ou “Modinha”. E eu ouvia essas e outras músicas sem parar. Os shows de Tom me levavam a fazer afirmações retóricas, do tipo: “É o maior”, “Viva o povo brasileiro”…

Não me lembro bem, mas muito provavelmente voltando de uma partida de futebol no longínquo bairro do Recreio, em que goleamos o adversário, falei ao Chico sobre meu entusiasmo por Chega de saudade e tantas outras composições da Bossa Nova, e perguntei se ele faria as gestões necessárias para que eu encontrasse com Jobim.

“Posso marcar um encontro teu com o Tom e recomendar a Companhia das Letras, mas eu sugiro que você o veja pela manhã, quando ele está mais concentrado. O ponto de encontro é sempre a churrascaria Plataforma. Um almoço cedo, pode ser?”

Assim foi. Almoço no Plataforma marcado, e eu vários dias sem dormir, enquanto me preparava para o encontro com meu grande ídolo. Contiuação da leitura, aqui...

Portugal: Ensaio Contra a Autoflagelação...


A autoflagelação é a má consciência da passividade, e não é fácil superá-la num contexto em que a passividade, quando não é querida, é imposta. Estamos a ser agidos.

No capítulo 1, faço breves precisões conceituais sobre as crises e suas soluções. No capítulo 2, apresento uma reconstrução histórica de algumas contas mal feitas na nossa vida colectiva e nas nossas relações com a Europa. No capítulo 3, analiso o possível impacto das medidas de austeridade recessiva na vida dos portugueses. No capítulo 4, proponho algumas medidas para sairmos da crise com dignidade e com esperança, tanto medidas de curto prazo como medidas de médio prazo. No capítulo 5, centro-me nos desafios que se levantam às soluções que só fazem sentido se adoptadas a nível europeu e mundial. O maior desses desafios é travar e se possível inverter a preocupante proliferação do que designo por fascismo social. Mo capítulo 6, defendo a necessidade e a possibilidade de um outro projecto europeu mais inclusivo e solidário. Finalmente no capítulo 7, defendo que a outra Europa possível só se concretizará na medida em que ela for capaz de partilhar os desafios da luta por um outro mundo muitíssimo mais vasto, mas, tal como ela, possível e urgente.

Fonte, aqui...

domingo, 31 de julho de 2011

Comboios Portugueses: Um guia Sentimental...

                                                                  Almeida Junior - Moça lendo em Itú
«Quando o longo corpo do comboio se põe em movimento sabe-se que o destino está fora das nossas fronteiras, e que poucos são os passageiros que viajam neste trem que não se destinam ao estrangeiro. Cedo será o Entroncamento, as paisagens banais, se o viajante viaja na Linha do Norte, entre Lisboa e Porto, e depois a Pampilhosa. A partir daqui, o Sud-Express começa a ser mais Sud-Express, pois só parará de novo em Mangualde, passando sobre Vila Franca das Naves como se não fosse com ele (e é, porque Vila Franca das Naves parece um lugarejo arrancado a outro mapa, de outro continente, entreposto de passageiros para Douro e Beira Alta). Eis então a Guarda. É esta a diferença: se fosse Verão, quando tivéssemos passado pela Barragem de Aguieira, teríamos visto o brilho das águas com o Sol descendente, se fosse o Sol a mover-se. Mas Março é ainda cedo para essa iluminação. A Aguieira fica já muito para trás, antes de Mangualde. Porém, a Guarda, seja Inverno ou Verão, aparece-nos sempre escura diante do Sud-Express, sendo daí a pouco tempo a fronteira de Vilar Formoso.

 (…) Há esticões nas carruagens: experimentam-se os freios. Os meus companheiros de viagem ameaçam dormir, e eu não quero, de modo nenhum. Um esticão mais forte, o apito da locomotiva, o arranque. Agora vai vagaroso o comboio, muito lento até chegar a Salamanca e, depois, a Valladolid. Quando se avistam as terras de Burgos é quase dia. Vitória em pleno País Basco, apanha-nos a querer o pequeno-almoço. A ele vamos, se valer a pena. Quando, depois de S. Sebastián, chegamos a Irún, é sem dar conta que entramos em França por Hendaye — e vamos aos passaportes, pois claro. Vamos dizer aos Franceses que estamos só de passagem, até Paris. Depois se verá. «Y que va usted a ver?» pergunta-me o último ferroviário espanhol. «A ver como vuelve el tren, claro», digo eu. Nem acredita, chama-se Zuque. (…)

Descaracterizado, o Sud-Express, aquele que em Portugal tem o nome de Sud-Expresso, e que é o comboio da emigração. Más condições de viagem, pouco apoio aos viajantes. Em querendo ir para Paris ou para o resto da Europa de comboio, o melhor é fazer a ligação por Madrid «y te coges el Puerta del Sol, no?, ese que va de Chamartín por la noche. No es malo el tren, eso me lo digo yo». Mas eu queria um comboio portugués. «Ah, eso es difícil, hay que pasar por nosotros. Le puedes hacer un protesto, a tu rey, a los reyes de Portugal…». Mas em Portugal não temos réis. «Como no hay reyes? Eso es difícil de entender…»

F. J. VIEGAS, «O Sud-Express», in Comboios Portugueses: um guia sentimental, Lisboa, Círculo de Leitores, 1988, pp. 179-181...

Fonte...

As Duas Águas do Mar...

Na sequência de "Crime em Ponta Delgada" e de "Morte no Estádio" (considerado por Maria Teresa Horta como um dos melhores romances de 1991), Francisco José Viegas constrói, em As Duas Águas do Mar, uma história emocionante, onde nos confrontamos com os caminhos da paixão e da morte. Parodiando de novo um género considerado erradamente menor, Francisco José Viegas confirma-se, com este seu romance, como uma das vozes mais originais da moderna ficção portuguesa...