quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Era do Vazio...


CAPÍTULO I

Sedução non stop

Como designar esta vaga de fundo característica do nosso tempo, que, por todo o lado, substitui a coerção pela comunicação, o interdito pela fruição, o anônimo pelo feito por medida, a reificação pela responsabilização, e que, por todo o lado, tende a instituir um clima de proximidade, de ritmo e de solicitude liberta do registo da Lei? Música, informação vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, gentil organizador, SOS, amizade. Mesmo a polícia tende a humanizar a sua imagem de marca, abre as portas das es¬quadras, explica-se perante a população, enquanto o exército se entrega a tarefas civis. “Os camionistas são simpáticos”, porque o não seria a tropa? A sociedade pós-industrial foi definida como sendo uma sociedade de serviços, mas, mais directamente ainda, é o auto-serviço que pulveriza por inteiro o antigo quadriculado disciplinar, fazendo-o, não através das forças da Revo¬lução, mas das ondas radiosas da sedução. Longe de se circunscrever às re¬lações interpessoais, a sedução tornou-se o processo geral que tende a regu¬lar o consumo, as organizações, a informação, a educação, os costumes. To¬da a vida das sociedades contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primado das relações de produção em provei¬to de uma apoteose das relações de sedução.

Sedução à lista

Com a categoria de espectáculo os situacionistas anunciavam de algum modo esta generalização da sedução, embora com uma reserva, é verdade, na medida em que o espectáculo designava a “ocupação da parte principal do tempo vivido no exterior da produção moderna” (G. Debord). Libertan¬do-se do ghetto da superestrutura e da ideologia, a sedução tomava-se rela¬ção social dominante, princípio de organização global das sociedades da abundância. Todavia, esta promoção da sedução, assimilada à época do consumo, depressa revelava os seus limites, consistindo a acção do espectá¬culo em transformar o real em representação falsa, em alargar a esfera da alienação e do desapossamento. “Nova força de engano”, “ideologia materia¬lizada”, “impostura da satisfação”, o espectáculo, a despeito ou por obra da sua radicalidade, não se desembaraçava das categorias próprias da era revo¬lucionária (a alienação e o seu outro, o homem total, “senhor sem escravo”), então precisamente em vias de desaparecer em surdina sob o efeito do reino alargado da mercadoria. Seduzir, enganar por meio do jogo das aparências - o pensamento revolucionário, mesmo quando atento ao novo, continuava a ter que localizar uma sedução negativa para levar a cabo a sua inversão: tributária do tempo revolucionário-disciplinar, a teoria do espectáculo recon¬duzia a versão eterna da sedução, a astúcia, a mistificação e a alienação das consciências.

Sem dúvida, temos que partir do mundo do consumo. Com a profusão luxuriante dos seus produtos, imagens e serviços, com o hedonismo que in¬duz, com o seu clima eufórico de tentação e proximidade, a sociedade de consumo revela até à evidência a amplitude da estratégia da sedução. Esta não se reduz, no entanto, ao espectáculo da acumulação; mais exactamente, identifica-se com a ultra-simplificação das opções que a abundância toma possíveis, com a latitude dos indivíduos mergulhados num universo transpa¬rente, aberto, oferecendo um número cada vez maior de escolhas e combina¬ções por medida, permitindo uma circulação e uma selecção livres. E esta¬mos apenas no começo, esta lógica alargar-se-á inelutavelmente à medida que as tecnologias e o mercado puserem à disposição do público uma diver¬sificação cada vez mais vasta de bens e de serviços. Actualmente, a TV por cabo oferece em certos pontos dos Estados-Unidos a escolha entre oitenta canais especializados, sem contar com os programas «a pedido»; calcula-se em cerca de cento e cinquenta o número de canais por cabo necessários à satisfação das exigências do público dentro de seis ou sete anos. Já hoje, o self-service, a existência à lista, designam o modelo geral da vida nas socie¬dades contemporâneas que vêem proliferar de modo vertiginoso as fontes de informação, o leque dos produtos expostos nos centros comerciais e hiper¬mercados tentaculares, nos armazéns ou restaurantes especializados. É assim a sociedade pós-moderna, caracterizada por uma tendência global no sentido de reduzir as relações autoritárias e dirigistas e simultaneamente de aumen¬tar a gama das opções privadas, privilegiar a diversidade, oferecer fórmulas de “programas independentes”, nos desportos, nas tecnologias psi, no turis¬mo, na descontracção da moda, nas relações humanas e sexuais. A sedução nada tem a ver com a representação falsa e com a alienação das consciên¬cias; é ela que configura o nosso mundo e o remodela segundo um processo sistemático de personalização cuja obra consiste essencialmente em multipli¬car e diversificar a oferta, em propor mais para que nós decidamos mais, em substituir a coacção uniforme pela livre escolha, a homogeneidade pela plu¬ralidade, a austeridade pela realização dos desejos. A sedução remete para o nosso universo de gamas opcionais, de secções de produtos exóticos, de am¬biente psi, musical e informacional, no qual cada um pode à vontade com¬por a lista dos elementos da sua existência. A independência é um traço de carácter, é também uma maneira de viajar segundo um ritmo seu, de acordo com os seus próprios desejos; construa a «sua» viagem. Os itinerários pro¬postos nos nossos Globe-Trotters são apenas sugestões que podem ser combi¬nadas, mas também modificadas tendo em conta a sua vontade». Este anún¬cio diz a verdade da sociedade pós-moderna, sociedade aberta, plural, levan¬do em conta os desejos dos indivíduos e aumentando a sua liberdade combi¬natória. A vida sem imperativo categórico, a vida kit modulada em função das motivações individuais, a vida flexível da época das combinações, das opções, das fórmulas independentes tornadas possíveis por uma oferta infini¬ta - é assim que opera a sedução. Sedução no sentido em que o processo de personalização reduz os quadros rígidos e coercivos, funciona suavemente jogando a cartada da pessoa individual, do seu bem-estar, da sua liberdade, do seu interesse próprio.

O processo de personalização começa a reordenar até a ordem da produ¬ção, muito timidamente ainda, e devemos deixá-lo dito aqui. Ê sem dúvida o mundo do trabalho que oferece a resistência mais tenaz à lógica da sedu¬ção, a despeito das revoluções tecnológicas em curso. A tendência para a personalização, no entanto, também aqui se manifesta. Em A Multidão Solitária. Riesman já a observava, mostrando como a cordialidade imposta, a personalização das relações de trabalho e dos serviços se substituíam pouco a pouco ao enquadramento funcional e mecânico da disciplina. Mais ainda, assistimos à multiplicação dos técnicos da comunicação e dos psicoterapeu¬tas de empresa. Abatem-se as paredes que separam os escritórios, o trabalho é feito em espaços abertos; a concentração e a participação são solicitadas por todos os lados. Fazem-se aqui e ali tentativas, muitas vezes apenas a título experimental, de humanização e de reorganização do trabalho ma¬nual: alargamento das tarefas, job enrichment, grupos autónomos de traba¬lho. A futura tecnologia electrónica, o número crescente de empregos de in¬formação permitem imaginar alguns cenários futuros: desconcentração das empresas, desenvolvimento do trabalho a domicílio, “casa electrónica”. Já hoje assistimos à flexibilização do tempo de trabalho: horários móveis ou à escolha, trabalho intermitente. Para além das características específicas des¬tes dispositivos, desenha-se uma mesma tendência, que define o processo de personalização: reduzir a rigidez das organizações, substituir os modelos uniformes e pesados por dispositivos flexíveis, privilegiar a comunicação em relação à coerção.

O processo conquista novos sectores e conhecerá uma extensão que nos é ainda difícil imaginar com as novas tecnologias com base no microprocessa¬dor e dos circuitos integrados. Eis o que actualmente se verifica já no ensino: trabalho independente, sistemas opcionais, programas individuais de tra¬balho e de auto-apoio por micro-computador; dentro de um prazo mais ou menos curto, haverá o diálogo com o teclado, a auto-avaliação, a manipula¬ção pessoal da informação. Os media estão em vias de experimentar uma reorganização que aponta no mesmo sentido; para além das redes por cabo, as rádios livres, os sistemas “interactivos”: a explosão do vídeo, o gravador, as video-cassettes, personalizando o acesso à informação, às imagens. Os conjuntos de vídeo e os milhares de fórmulas que proporcionam alargam e privatizam em grande escala as possibilidades lúdicas e interactivas (prevê-se que um lar americano em cada quatro esteja dentro de pouco tempo equipa¬do com conjuntos de vídeo). A micro-informática e a galáxia vídeo designam a nova vaga da sedução, o novo vector de aceleração da individualização dos seres, após a idade heróica do automóvel, do cinema, do electrodoméstico. “My computer likes me”: não nos enganemos, a sedução videomática não se refere apenas à magia das performances das novas tecnologias; enraíza-se profundamente no aumento da autonomia individual esperada, na possibilidade para cada indivíduo de ser um livre agente do seu tempo, menos pre¬gado às normas das organizações pesadas. A sedução em curso é uma sedu¬ção privática.

Todas as esferas são actualmente anexadas, cada vez mais depressa, por um processo de personalização multiforme. Na ordem psicoterapêutica, surgiram novas técnicas (análise transaccional, grito primal, bioenergia) que exacerbam a personalização psicanalítica considerada demasiado “intelectua¬lista”; prioridade dada aos tratamentos rápidos, às terapias “humanistas” de grupo, à libertação directa do sentimento, das emoções, das energias corpo¬rais: a sedução investe todos os pólos, do software à descarga «primitiva». A medicina sofre uma evolução paralela: acupunctura, visualização do corpo interno, tratamento natural por meio de ervas, biofeedback, homeopatia, as terapias “suaves” conquistam terreno, advogando a subjectivização da doença, a gestão “holística” da saúde pelo próprio indivíduo, a exploração mental do corpo em ruptura com o dirigismo hospitalar; o doente já não deve conti¬nuar a sofrer passivamente o seu estado, é responsável pela sua saúde, pelos seus sistemas de defesa, graças às potencialidades da autonomia psíquica. Simultaneamente, o desporto assiste à proliferação das práticas livres de cro¬nómetro, de confronto, de competição, e que privilegiam o treino livremente escolhido, a sensação de planar, a audição do corpo (jogging, windsurf, gi¬nástica suave, etc.); o desporto é reciclado através da psicologização do corpo, da total tomada de consciência de si, do livre curso aberto à paixão dos ritmos individuais.

Os costumes inclinam-se também no sentido da lógica da personalização. O gosto do tempo privilegia a diferença, a fantasia, a descontracção; a es¬tandardização e a rigidez já não têm boa reputação. O culto da espontanei¬dade e a cultura psi estimulam o indivíduo a ser “mais” ele próprio, a «sen¬tir», a analisar-se, a libertar-se dos papéis e “complexos”. A cultura pós¬-moderna é a do feeling e da emancipação individual alargada a todos os grupos de idade e sexo. A educação, de autoritária que era, tornou-se alta¬mente permissiva, atenta aos desejos das crianças e dos adolescentes, en¬quanto que, por todos os lados, a vaga hedonista desculpabiliza o tempo li¬vre, encoraja cada um a realizar-se sem constrangimentos e a aumentar os seus ócios. A sedução: uma lógica que abre caminho, que nada poupa e que, deste modo, realiza uma socialização flexível, tolerante, empenhada na personalização-psicologização do indivíduo.

A sedução repercute-se na linguagem. Já não há surdos, cegos, coxos; estamos no tempo dos que ouvem mal, dos invisuais, dos deficientes; os velhos tornaram-se pessoas da terceira ou da quarta idade; as criadas, empregadas domésticas; os proletários, parceiros sociais; as mães solteiras, mães celiba¬tárias. Os cábulas são crianças com problemas ou casos sociais, o aborto é uma interrupção voluntária da gravidez. Até os analisados são analisandos. O processo de personalização asseptiza o vocabulário como o coração das ci¬dades, os centros comerciais e a morte. Tudo o que exibe uma conotação de inferioridade, de deformidade, de passividade, de agressividade, deve desa¬parecer em proveito de uma linguagem diáfana, neutra e objectiva - tal é o último estádio das sociedades individualistas. Paralelamente às organizações flexíveis e abertas organiza-se uma linguagem eufemística e lenitiva, um lif¬ting semântico conforme ao processo de personalização centrado no desen¬volvimento, no respeito e na tolerância relativamente às diferenças indivi¬duais. «Sou um ser humano. Não dobrar, estragar ou deformar». A sedução liquida numa mesma vaga as regras disciplinares e as últimas reminiscências do mundo do sangue e da crueldade. Tudo deve comunicar sem resistência, sem relegação, num hiper-espaço fluido e acósmico, na esteira das telas e cartazes de Folon.

Se o processo de personalização é inseparável de uma esterilização acon¬dicionada do espaço público e da linguagem, de uma sedução irreal à ma¬neira das vozes adocicadas das hospedeiras dos aeroportos, é igualmente in¬separável de uma animação rítmica da vida privada. Vivemos uma formidável explosão musical: música ininterrupta, hit-parade, a sedução pós-moderna é hi-fi. Doravante, a aparelhagem sonora é um bem de primeira necessi¬dade; faz-se desporto, deambula-se, trabalha-se, sempre no meio de música; anda-se de automóvel em estéreo, a música e o ritmo tornaram-se, no espaço de algumas décadas, um ambiente quase permanente, um engodo de massa. Para o homem disciplinar-autoritário, a música circunscrevia-se a lugares e momentos específicos, concerto, dancing. music-hall, baile, rádio; o indiví¬duo pós-moderno, pelo contrário, está ligado à música de manhã à noite; tudo se passa como se tivesse necessidade de estar sempre noutro lugar, de ser transportado e envolvido por uma atmosfera ambiente sincopada; tudo se passa como se precisasse de uma desrealização estimulante, eufórica ou inebriante do mundo. Revolução musical ligada, sem dúvida, às inovações tecnológicas, ao império da ordem mercantil, do show-business. mas que nem por isso manifesta menos o processo de personalização, uma das faces da transformação pós-moderna do indivíduo. Da mesma maneira que as ins¬tituições se tornam flexíveis e móveis, o indivíduo torna-se cinético, aspira ao ritmo, a uma participação de todo o corpo e de todos os sentidos, participa¬ção hoje possível através da estereofonia, do walkman, dos sons cósmicos ou paroxísticos das músicas da idade electrónica. À personalização por medida da sociedade corresponde uma personalização do indivíduo, que se traduz no desejo de sentir «mais», de planar, de vibrar em directo, de experimentar sensações imediatas, de ser posto integralmente em movimento numa espécie de trip sensorial e pulsional. As realizações técnicas da estereofonia, os sons eléctricos, a cultura do ritmo inaugurada pelo jazz e prolongada pelo rock. permitiram à música tornar-se esse medium privilegiado do nosso tempo, porque em consonância estreita com o novo perfil do indivíduo personaliza¬do, narcísico, sedento de imersão instantânea, sedento de «descarregar» não apenas ao ritmo dos últimos êxitos, mas das mais diversas espécies de músi¬ca, das variedades mais sofisticadas, actualmente postas à sua constante dis¬posição.

A sedução pós-moderna não é um ersatz de comunicação ausente nem um cenário destinado a ocultar a abjecção das relações mercantis. Seria vê¬-la de novo como um consumo de objectos e de signos artificiais, reinjectar o logro onde existe, antes do mais, uma operação sistemática de personaliza¬ção, ou, por outras palavras, uma atomização do social ou uma extensão em abismo da lógica individualista. Fazer da sedução uma “representação ilusó¬ria do não-vivido” (Debord) é reconduzir o imaginário das pseudo-necessida¬des, a oposição moral entre o real e a aparência, um real objectivo ao abrigo da sedução, quando esta se define, sobretudo, como processo de transforma¬ção do real e do indivíduo. Longe de ser um agente de mistificação e de pas¬sividade, a sedução é destruição cool do social através de um processo de isolamento, que já não surge administrado pela força bruta ou pelo quadri¬culado regulamentar, mas através do hedonismo, da informação e da res¬ponsabilização. Com o reino dos media, dos objectos e do sexo, cada indiví¬duo se observa, se testa, se vira mais para si próprio à espreita da sua pró¬pria verdade e do seu bem-estar, tornando-se responsável pela sua vida, de¬vendo gerir o melhor possível o seu capital estético, afectivo, físico, libidinal, etc. Aqui, socialização e dessocialização identificam-se; no centro do deserto social ergue-se o indivíduo soberano, informado, livre, prudente administrador da sua vida: ao volante, cada um aperta o seu próprio cinto de seguran¬ça. Fase pós-moderna da socialização, o processo de personalização é um novo tipo de controlo social desembaraçado dos processos pesados de massi¬ficação-reificação-repressão. A integração realiza-se por meio da persuasão, invocando a saúde, a segurança e a racionalidade: anúncios e sensibilizações médicas, mas também conselhos das associações de consumidores. Dentro em breve, o vídeotex passará a apresentar «árvores de decisão», sistemas de pergunta-resposta permitindo ao consumidor dar a conhecer ao computador os seus próprios critérios a fim de efectuar uma escolha racional e, ao mes¬mo tempo, porém, personalizada. A sedução deixou de ser libertina.

Sem dúvida, nem tudo isto data de agora. Foi já há séculos que as socie¬dades modernas inventaram a ideologia do indivíduo livre, autónomo e se¬melhante aos outros. Paralelamente, ou com inevitáveis desfasamentos históricos, edificou-se uma economia livre baseada no empresário independente e no mercado, ao mesmo tempo que se instalaram regimes políticos democráticos. Neste quadro, no que se refere à vida quotidiana, ao modo de vida, à sexualidade, o individualismo viu-se, até uma data recente, contido na sua expansão por estruturas ideológicas rígidas, instituições, costumes ainda tra¬dicionais ou disciplinares-autoritários. É esta última fronteira que se desfaz ante os nossos olhos a uma velocidade prodigiosa. O processo de personalização impulsionado pela aceleração das técnicas, pela gestão, pelo consumo de massa, pelos media, pelos desenvolvimentos da ideologia individualista, pelo psicologismo, leva ao seu ponto culminante o reino do indivíduo, faz explodir as últimas barreiras. A sociedade pós-moderna ou, por outras palavras, a sociedade que generaliza o processo de personalização em ruptura com a organização moderna disciplinar-coerciva, realiza de algum modo, no interior do quotidiano e através de novas estratégias, o ideal moderno da au¬tonomia individual, ainda que esta se revele, até à evidência, de um teor iné¬dito.

Os discretos encantos da política

O mundo político não se mantém à margem da sedução. A começar pela personalização imposta da imagem dos dirigentes ocidentais: simplicidade ostensiva, o homem político surge de jeans ou pull-over, reconhece humildemente os seus limites e fraquezas, faz entrar em cena a família, o seu boletim de saúde, a sua juventude. Em França, Giscard, na esteira de Kennedy ou de P.-E. Trudeau, foi o símbolo autêntico desta humanização¬-psicologização do poder: um presidente à “escala humana”, que declara não querer sacrificar a sua vida privada, toma o pequeno-almoço com os homens dos serviços de limpeza, janta fora com esta ou aquela família francesa. Não nos iludamos: o desenvolvimento dos novos media, da televisão em particu¬lar, por capital que seja nesta questão, não pode explicar no fundamental esta promoção da personalidade, esta necessidade de confeccionar semelhan¬te imagem de marca. A política personalizada corresponde à emergência desses novos valores que são a cordialidade, as confidências íntimas, a proxi¬midade, a autenticidade, a personalidade, valores individualistas-democráti¬cos por excelência, difundidos em larga escala pelo consumo de massa. A se¬dução: filha do individualismo hedonista e psi, muito mais do que do ma¬quiavelismo político. Perversão das democracias, intoxicação, manipulação do eleitorado por um espectáculo de ilusões? Sim e não, porque se é exacto que existe realmente um marketing político programado e cínico, é igual¬mente correcto dizer que as vedetas políticas não fazem senão adaptar-se ao habitus pós-moderno do homo democraticus. com uma sociedade já personalizada desejosa de contacto humano, refractária ao anonimato, às lições pe¬dagógicas abstractas, à linguagem estereotipada, aos papéis distantes e con¬vencionais. Quanto ao impacto real do design da personalização, poderemos perguntar-nos se não será este consideravelmente sobrevalorizado pelos pu¬blicistas e pelos políticos[1], eles próprios amplamente seduzidos pelos meca¬nismos de sedução do star system: na medida em que actualmente todas as cabeças de cartaz se submetem mais ou menos à mesma lógica, o seu efeito anula-se por difusão e saturação mediática; a sedução surge como uma at¬mosfera soft. imperativa e sem surpresas, que distrai epidermicamente um público que está muito longe de ser tão ingénuo e passivo como imaginam os actuais detractores do “espectáculo”.

Mais significativa ainda no que se refere à sedução é a tendência que as democracias hoje revelam para jogarem a cartada da descentralização. De¬pois da unificação nacional e da supremacia das administrações centrais, o recente poder dos conselhos regionais e de eleição local, as políticas culturais regionais. A época é a do desprendimento do Estado, das iniciativas locais e regionais, do reconhecimento dos particularismos e identidades territoriais; a nova distribuição do jogo da sedução democrática humaniza a nação, ventila os poderes, aproxima as instâncias de decisão dos cidadãos, redistribui uma dignidade às periferias. O Estado nacional-jacobino esboça uma reconversão centrífuga destinada a reduzir a rigidez das burocracias, reavalia o “país”, promove de certo modo uma democracia do contacto, da proximidade, atra¬vés de uma reterritorialização-personalização regionalista. Simultaneamente, organiza-se uma política do património que se inscreve na mesma linha que a da descentralização ou da ecologia: deixar de devastar, de desenraizar ou de inferiorizar, para proteger e valorizar as riquezas regionais, memoriais ou naturais. A nova política museográfica tem como correspondente a política de regionalismo administrativo e cultural, aplicando-se a desenvolver do mesmo modo forças e entidades excentradas, montando um mesmo disposi¬tivo de diálogo entre presente e passado, entre população e torrão natal. Não se trata de um efeito de nostalgia de uma sociedade devastada pela conquis¬ta do futuro, e ainda menos de um show media-político; mais obscuramente, mas mais profundamente, trata-se de uma personalização do presente através da salvaguarda do passado, de uma humanização dos objectos e monu¬mentos antigos análoga à das instituições públicas e das relações interindivi¬duais. De modo nenhum imposto do exterior, de modo nenhum conjuntural, este interesse museográfico encontra-se em consonância com a sensibilidade pós-moderna em busca de identidade e de comunicação, nada apaixonada pelo futuro histórico, acabrunhada com a ideia de destruições irreversíveis. Aniquilar os vestígios é como devastar a natureza; uma mesma repulsa se apodera dos nossos espíritos hoje curiosamente inclinados a dotarem de al¬ma, a psicologizarem toda a realidade, homens, pedras, plantas, meio am¬biente. O efeito património é indissociável da suavização dos costumes, do crescente sentimento de respeito e de tolerância, de uma psicologização sem limites.

A autogestão cujo projecto consiste em suprimir as relações burocráticas de poder, em fazer de cada indivíduo um sujeito político autónomo, repre¬senta um outro aspecto da sedução. Abolição da separação dirigente¬-executante, descentralização e disseminação do poder, é à liquidação da me¬cânica do poder clássico e da sua ordem linear que se aplica a autogestão, sistema cibernético de distribuição e de circulação da informação. A auto¬gestão é a mobilização e o tratamento optimizado de todas as fontes de in¬formação, a instituição de um banco de dados universal, relativamento ao qual cada um é ao mesmo tempo e a todo o momento emissor e receptor ¬é a informatização política da sociedade. Doravante, torna-se necessário ven¬cer a entropia constitutiva das organizações burocráticas, reduzir os blo¬queamentos da informação, os segredos e desafecções. A sedução não fun¬ciona graças ao mistério, mas graças à informação, ao feed-back, à ilumina¬ção sem resíduos do social, à maneira de um strip-tease integral e generali¬zado. Nestas condições, não é surpreendente que numerosas correntes ecoló¬gicas adoptem no seu programa a autogestão. Rejeitando a predominância da espécie humana e a unilateralidade da relação entre o homem e a nature¬za, que conduzem à poluição e à expansão cega, a ecologia substitui à mecâ¬nica pesada do crescimento a regulação cibernética, a comunicação, o feed¬back, deixando a natureza de ser um tesouro a pilhar, uma força a explorar, para se converter num interlocutor a ouvir e a respeitar. Solidariedade das espécies vivas, protecção e saúde do meio ambiente, toda a ecologia repousa num processo de personalização da natureza, no tomar em consideração essa unidade insubstituível, não-negociável, finita, ainda que planetária, que é a natureza. Correlativamente, é no sentido da responsabilização do homem que a ecologia trabalha, alargando o campo dos deveres, do social ao plane¬tário: se a ecologia se esforça efectivamente por travar e deter o processo ili¬mitado da expansão económica, contribui, em contrapartida, para uma ex¬pansão do sujeito. Recusando o modelo produtivista, a ecologia aspira a uma mutação tecnológica, à utilização de técnicas suaves, não poluentes e, para os mais radicais, a uma reconversão total dos métodos e unidades de trabalho: reimplantação e redisseminação das unidades industriais e da po¬pulação, pequenas oficinas autogeridas, integradas em comunidades à escala humana, de dimensões reduzidas. A cosmogonia ecológica não conseguiu es¬capar aos encantos do humanismo. Redução das relações hierárquicas e da temperatura histórica, personalização, crescimento do sujeito, a sedução desdobra a sua panóplia cobrindo até os espaços verdes da natureza.

O próprio PCF não quer ficar para trás e apanha o comboio em andamento abandonando a ditadura do proletariado, último dispositivo sangrento da época revolucionária e da teleologia da história. A sedução abole a Revolução e o emprego da força, destrói as grandes finalidades históricas, mas também emancipa o Partido do autoritarismo estaliniano e da sua sujeição ao grande Centro; a partir daqui, o PCF pode começar a admoestar timida¬mente Moscovo e a “tolerar” as críticas dos seus intelectuais sem praticar purgas nem exclusões. A luta final não terá lugar: grande operadora de sínteses, de unidade, a sedução, na esteira de Eros, actua por ligação, coe¬são e aproximação. O engate por meio de estatísticas, o compromisso histó¬rico, a união do povo de França substituem a guerra de classes. Quer flirtar comigo? Só a Revolução fascina, porque se coloca do lado de Thanatos, da descontinuidade, do desligamento. A sedução, essa, rompeu todos os laços que a uniam ainda, no dispositivo donjuanesco, à morte, à subversão. Sem dúvida, o PCF continua a ser na sua ideologia e na sua organização o parti¬do menos inclinado a ceder às piscadelas de olho da sedução, o partido mais rétro, o mais preso ao moralismo, ao centralismo, ao burocratismo, e é mes¬mo essa rigidez congénita que, em parte, está na origem dos retumbantes fracassos eleitorais que sabemos. Mas, por outro lado, o PCF apresenta-se como um partido dinâmico e responsável, identificando-se cada vez mais com um organismo de gestão sem missão histórica, tendo adoptado, por sua vez, após prolongadas hesitações, os vectores-chave da sedução management, inquéritos através de sondagens, reciclagens regulares, etc., incluindo a ar¬quitectura da sua sede, prédio de vidro sem segredo, montra iluminada pe¬las luzes das metamorfoses «in» do aparelho. Formação de compromisso en¬tre a sedução e a era passada da revolução, o PC joga duas cartadas ao mes¬mo tempo, condenando-se obstinadamente ao papel de sedutor envergonha¬do e infeliz. O mesmo perfil se encontra no marxismo deles, para falarmos aqui à maneira de Lenine. Por exemplo, a voga do althusserianismo: rigor e austeridade do conceito, anti-humanismo teórico, o marxismo faz sua uma imagem de marca dura, sem concessões, nos atípodas da sedução. Mas em¬penhando-se na via da articulação dos conceitos, o marxismo entra simulta¬neamente na sua fase de desarmamento: o seu objectivo já não é a formação revolucionária de uma consciência de classe unificada e disciplinada, mas a formação de uma consciência epistemológica. A sedução triste do marxismo envergou o fato completo dos homens de “ciência”.

Sexdução

Em torno da inflação erótica actual e da pornografia, uma espécie de denúncia unânime reconcilia as feministas, os moralistas, os estetas, escandali¬zados pelo aviltamento do ser humano reduzido à categoria de objecto e pelo sexo-máquina que faz desaparecer as relações de sedução num deboche re¬petitivo e sem mistério. Mas se o essencial não estivesse aí - se a pornografia não fosse afinal senão mais uma figura da sedução? Que faz a pornografia, com efeito, senão suspender a ordem arcaica da Lei e do Interdito, abo¬lir a ordem coerciva da Censura e do recalcamento em benefício de um ver¬-tudo, fazer-tudo, dizer-tudo, que define exactamente o trabalho da sedução?

É ainda o ponto de vista moral que reduz a ponografia à reificação e à or¬dem industrial ou serial do sexo: aqui tudo é permitido, é preciso ir cada vez mais longe, procurar dispositivos inéditos, novas combinações numa livre disposição do corpo, numa livre empresa do sexo que faz do porno, contra¬riamente ao que dizem os seus detractores, um agente de desestandartização e de subjectivização do sexo e pelo sexo, à semelhança dos movimentos de li¬bertação sexual. Diversificação libidinal, constelação de «pequenos anúncios»singulares: depois da economia, da educação, da política, a sedução anexa o sexo e o corpo de acordo com o mesmo imperativo de personalização do in¬divíduo. Na hora do self-service libidinal, o corpo e o sexo tornam-se instru¬mentos de subjectivização-responsabilização; é preciso acumular as experiên¬cias, explorar o capital libidinal pessoal, inovar em matéria de combinações. Tudo o que se pareça com a imobilidade, com a estabilidade tem que desa¬parecer em proveito da experimentação e da iniciativa. Assim se produz um sujeito já não através da disciplina, mas da personalização do corpo sob a égide do sexo. O seu corpo é você, o corpo deve ser cuidado, amado, exibi¬do; já nada tem a ver com a máquina. A sedução alarga o ser-sujeito atri¬buindo ao corpo outrora oculto uma dignidade e uma integridade novas: nu¬dismo, seios nus, são os sintomas espectaculares desta mutação através da qual o corpo se torna pessoa a respeitar, a acarinhar ao calor do sol. O jerk é um outro sintoma desta emancipação: se, com o rock ou o twist, o corpo estava ainda submetido a certas regras, com o jerk caem todas as imposições das figuras codificadas, o corpo já só tem que se exprimir, tornando-se, na esteira do Inconsciente, linguagem singular. Nas pistas dos night-clubs, gra¬vitam sujeitos autónomos, seres activos, já ninguém convida ninguém, as ra¬parigas já não fazem “renda” e os “tipos” já não monopolizam a iniciativa. Ficam apenas mónadas silenciosas cujas trajectórias aleatórias se cruzam nu¬ma dinâmica de grupo açaimada pelo feitiço do som.

Que se passa quando o sexo se torna político, quando as relações sexuais se traduzem em relações de forças, em relações de poder? Denunciando a mulher-mercadoria, chamando à mobilização de massa em torno de um “programa comum”, constituindo-se em movimento específico que exclui os homens, o neo-feminismo não introduzirá uma linha dura, maniqueísta, e por isso irredutível ao processo de sedução? Não é, de resto, assim que os movimentos feministas se apresentam? No entanto, algo de mais fundamen¬tal se encontra em jogo: assim, através do combate pelo aborto livre e gra¬tuito, é o direito à autonomia e à responsabilidade em matéria de procriação que se visa; trata-se de retirar a mulher do seu estatuto de passividade e de resignação relativamente ao carácter aleatório da procriação. Dispor de si, escolher, deixar para trás a máquina reprodutora e o destino biológico e so¬cial - o neo-feminismo é também uma das figuras do processo de personali¬zação. Com as recentes campanhas contra a violação, surgiu uma publicida¬de inédita em torno de um fenómeno outrora mantido em segredo e na ver¬gonha, como se nada devesse continuar oculto, obedecendo ao imperativo de transparência e de iluminação sistemática do presente que governa as nossas sociedades. Por meio desta redução das sombras e das obscuridades, o movi¬mento de libertação das mulheres, seja qual for o seu radicalismo, faz parte integrante do strip-tease generalizado dos tempos modernos. Informação, co¬municação, tais são os caminhos da sedução. Empenhado, por outro lado, em não dissociar o nível político do psicanalítico, o neo-feminismo veícula uma vontade explícita de psicologização, como mostram os pequenos grupos chamados de self-help ou de tomada de consciência em que as mulheres se escutam, se analisam, falam procurando descobrir os seus desejos e os seus corpos. É o “vivido” que doravante vem em primeiro lugar: prevenção com o teórico, com o conceptual, que são o poder, a máquina imperial masculina. “Comissões de experiências pessoais”: a emancipação, a busca de uma iden¬tidade própria passa pela expressão e pelo confronto das experiências exis¬tenciais.

Igualmente característica é a questão do “discurso feminino” em deman¬da de uma diferença, de uma afirmação independente do referencial mascu¬lino. Nas suas versões mais radicais, trata-se de abandonar a economia do logos, da coerência discursiva, afirmando o feminino numa auto-de¬terminação, numa “auto-afecção” (Luce Irigaray) desembaraçada de todo o centrismo, de todo o falocentrismo enquanto última posição panóptica do poder. Mais importante do que a reinscrição de um território marcado é a flutuação deste lugar em si próprio, a impossibilidade de o circunscrever e de o identificar: nunca idêntico a si próprio, nunca idêntico a nada, “espécie de universo em expansão ao qual não é possível fixar quaisquer limites, mas que não é por tão pouco incoerência”[2],o feminino é plural, todo fluência, contiguidade e proximidade, ignora o “próprio” e, portanto, a posição de su¬jeito. Nem sequer se trata já de elaborar um outro conceito de feminilidade, que não deixaria de retomar a máquina teórico-fálica e de reintroduzir a economia do Mesmo e do Um. Para se definir, o hiperfeminismo reivindica o estilo. a sintaxe Outra, “táctil” e fluida, sem sujeito nem objecto. Como não reconhecer nesta economia dos fluidos, nesta multiplicidade condutível, o próprio trabalho da sedução que, por toda a parte, abole o Mesmo, o Centro, a linearidade e procede à diluição das formas rígidas e dos “sóli¬dos”? Longe de representar uma involução, a suspensão da vontade teórica não é mais do que um último estádio da racionalidade psicológica; longe de se identificar ao recalcado da história, o feminino assim definido é um pro¬duto e uma manifestação da sedução pós-moderna, libertando e desestan¬dartizando, no mesmo movimento, a identidade pessoal e o sexo: “A mulher tem sexos um pouco por toda a parte”[3]. Nada mais errado, então, do que partir em guerra contra esta mecânica dos fluidos acusada de restabelecer a imagem arcaica e falocrática da mulher[4]. É o contrário que é verdade: sexdução generalizada, o neo-feminismo apenas exacerba o processo de perso¬nalização, organiza uma figura inédita do feminino, polimorfa e sexuada, emancipada dos papéis e identidades estritas de grupo, em consonância com a instituição da sociedade aberta. Tanto ao nível teórico como militante, o neo-feminismo trabalha para a reciclagem do ser-feminino, valorizando-o sob todas as perspectivas: psicológica, sexual, política, linguística. Trata-se, antes do mais, de responsabilizar e psicologizar a mulher, liquidando uma última “parte maldita”, ou, por outras palavras, de promover a mulher a uma categoria de individualidade plena, adaptada a sistemas democráticos hedonistas incompatíveis com seres presos a códigos de socialização arcaicos, feitos de silêncio, de submissão casta, de histerias misteriosas.

Entendamo-nos bem, esta inflação de análises e de comunicações, esta proliferação de grupos de discussão não porão fim ao isolamento da sedu¬ção. Com o feminismo passa-se o mesmo que com o psicanalismo: quanto mais se interpreta, mas as energias refluem no sentido do Eu, o inspeccio¬nam e examinam por todos os lados; quanto mais se analisa, mais a interio¬rização e a subjectivização do indivíduo ganham em profundidade; quanto mais Inconsciente e quanto mais interpretação, mais se intensifica a auto-¬sedução. Máquina nascísica incomparável, a interpretação analítica é um agente de personalização por meio do desejo e, no mesmo acto, um agente de dessocialização, de atomização sistemática e interminável, do mesmo mo¬do que os arranjos da sedução. Sob a égide do Inconsciente e do Recalca¬mento, o indivíduo é remetido para si próprio e para o seu reduto libidinal, em busca da sua imagem desmistificada, privado até, nos últimos avatares lacanianos, da autoridade e da verdade do analista. Silêncio, morte do ana¬lista, somos todos analisandos, simultaneamente interpretados e intérpretes numa circularidade sem portas nem janelas. Don Juan está realmente mor¬to; uma nova figura, muito mais inquietante, se ergue agora, Narciso, subju¬gado por si próprio na sua cápsula de vidro.
________________________________________

[1] R.G. Schwartzenberg, L'État spectacle, Flammarion, 1977.
[2] Luce lrigaray, Ce sexe qui n 'en est pas un, Éd. de Minuit, 1977, p. 30.
[3] L. lrigaray, op. cit.. p. 28.
[4] C. Alzon, Femme mythifiée. femme mystifiée. PUF, 1978, pp. 25-42.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio D’Água. 1983.

(Fonte: Doc PDF)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Quando você sabe que errar vale a pena!...

                                                    Foto Educadores Popular no Seringal Cachoeira
 Tudo aquilo que a gente costuma vivenciar ou vislumbrar nos remete sempre a uma idéia basilar: a escolha!... Estamos a cada instante cercados de escolhas, porém nem sempre elas são favoráveis para toda a gente... Muitas vezes, nem nós mesmo que optamos por uma determinada escolha, não estamos convictos de que ela foi a melhor forma que tivemos para atingir ou seguir a Trilha certa de nossos objetivos!...

Finalmente, apenas você é quem sabe o quanto vale sonhar!... O valor de nossos sonhos somente nós sabemos: temos momentos agradabilíssimos; amigos inesquecíveis; acasos inexplicáveis... E, existem pessoas que nos interpretam muito mal, pouco importa!... Como já dizia o poeta: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”...

Todos os meus erros são por uma Causa Nobre!

“Imaginem-me como uma parteira!... Acompanhando o nascimento de alguém, sem exibição ou espalhafato... Minha tarefa foi facilitar o que estava acontecendo... Se devo assumir o comando..., faço de tal modo que auxilio a mãe e deixo que ela continue livre e responsável... Quando nascer a criança, a mãe dirá com razão: nós três realizamos esse trabalho!...”

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Eu sou amazônida!... E você?...

             
                                                                                     foto: Vitor Soares - rio Amazônas
Em 1984 voltei de uma temporada de estudos nos Estados Unidos disposto a fazer o mais crítico acompanhamento possível da construção da hidrelétrica de Tucuruí... Escrevia todos os dias sobre o tema na coluna de opinião que assinava em O Liberal. A Eletronorte, responsável pela obra, não suportando a cobrança diária, se comprometeu a me avisar em tempo de estar em Tucuruí para o início da formação do lago artificial, o segundo maior do país. Mas não cumpriu a palavra.Informado por outra fonte de que a última adufa se fechara, fretei um táxi-aéreo em Belém e voei imediatamente para Tucuruí. Um engenheiro da Eletronorte já me esperava no aeroporto (operado pela empresa, que tudo controlava) quando o avião aterrissou. Mandei tocar direto para a usina. De um ponto elevado divisei a paisagem: o Tocantins a jusante já sem o suprimento da água de montante e a enorme estrutura de concreto segurando aquele riozão, com mais de dois mil quilômetros de extensão, o 25º maior rio do planeta. Ali, o homem estava desafiando a natureza. Estancara o movimento natural daquelas águas pela primeira vez em milhões de anos.

O choro, mais forte do que eu, veio sem controle... Ao meu lado, o engenheiro Washington não sabia o que fazer. Por que eu chorava? Porque ali, naquele momento, diante de uma incrível obra do homem, ao mesmo tempo maravilhosa e diabólica, eu senti um outro rio pujante a fluir pelas minhas veias de caboclo das margens alvas do belo Tapajós. Uma das minhas fontes vitais, a água (mas não uma água qualquer: aquela água cristalina e refrescante da minha infância feliz), estava irremediavelmente tocada - e alterada - pela mão do homem, humana máquina, deus ex-machina...

Foi um dos momentos mais fortes e reveladores da minha vida. Refeito do choro, mirei o engenheiro da Eletronorte e ordenei: siga-me!... E foi um tal de subir e descer escadas de adufas, dezenas, centenas, até que Washington, menos preparado para a tarefa hercúlea, bateu lona: "Juro que todas são iguais, não precisamos examiná-las por inteiro".

Eu sabia disso, claro... Mas queria aplacar a minha fúria de caboclo, ludibriado pela grande empresa, como de regra, vítima de sua agressão supostamente bem intencionada. Começávamos o ciclo das grandes hidrelétricas. Os rios jamais voltariam a ser os mesmos. A partir daquele momento, deixariam de ser caminhos naturais, abrigo aquoso dos nossos mergulhos, cúmplice dos amores que juramos como botos na fímbria das areias sem igual das nossas praias.

Vivi situação semelhante, em outro contexto, no meu querido Tapajós... Duas semanas atrás, ao deparar com fotos aéreas produzidas pelo Greenpeace sobre áreas de floresta que os plantios de soja substituíram, senti a mesma dor no coração. Como estava apenas virtualmente no cenário - e não de corpo presente, como em Tucuruí - desta vez não chorei... Mas talvez tenha sido pior. A lágrima alivia, consola, acalma. Sem ela, estamos entregues ao pleno domínio da consciência. E a lucidez dói muito na Amazônia, sangra no Pará, aniquila no Tapajós.

Neste exato instante, a discussão sobre o significado da substituição da floresta amazônica por novos cultivos, embora necessária, não é o que mais importa. Ela terá que vir - e logo. Mas no impacto da instantaneidade, o que conta é a dor. Aquela paisagem, antes dominada por árvores de copas gigantes e com raízes de anão, e agora reduto de rasteira vegetação homogênea, de planta exótica, fere a alma, quebra a unidade, rasga a identidade, é pura e bestial violência, como diriam nossos antepassados portugueses.

Amazônidas, somos filhos da água e da floresta. Temos 12% da água doce superficial da Terra e um terço de suas florestas tropicais remanescentes, que são as mais ricas em biodiversidade desta nossa Gaia. Água e floresta se formaram e nos antecederam desde milhões de anos atrás. Há uns oito mil anos os primeiros descendentes do Homo Sapiens se estabeleceram às margens desses ciclópicos cursos d’água e à sombra dessas árvores sem igual.

Durante 7.500 anos a espécie humana conviveu com os elementos naturais num cenário de harmonia (o "paraíso perdido" que Euclides da Cunha procurou no século XX). Nos últimos 500 anos esse organismo harmônico, formado por homens, árvores e água, se tem desintegrado. Nos últimos 50 anos desse meio milênio o processo de destruição dos elementos naturais foi avassalador. Nunca o descendente do Homo Sapiens, ao longo de uma trajetória de 20 mil anos, destruiu tanta floresta quanto na Amazônia neste último meio século. E nunca desperdiçou tanta água, seja ela em si como em suas extensões utilitárias, especialmente na forma de energia.

Quem disse que precisa ser assim?... Quem determinou que não pode ser de outra maneira senão assim?... Quem apurou que desta maneira..., substituindo o reino da floresta por novas práticas agrícolas e supostamente silviculturais, nos desenvolveremos e seremos felizes?...

Não fui eu, é claro. Eu não aprisionaria um rio de dois mil quilômetros por uma barragem de 75 metros de altura para fazê-lo refluir sobre suas águas 200 quilômetros, submergindo 2.850 quilômetros quadrados, cobertos, sobretudo, por vegetação, com o acúmulo de mais de 50 trilhões de litros de água, para transmitir energia por centenas de quilômetros até grandes consumidores, que pagam uma tarifa inferior à de custo (e, ainda assim, relativamente cara em comparação ao que seria viável por outro caminho de engenharia e outros padrões de gestão no serviço público)...

Caboclo do Tapajós, eu não mandaria derrubar árvores de 50 metros de altura, congregadas num mutualismo sem paralelo, uma na dependência e na complementaridade da outra (processo que malmente começamos a conhecer, com um sentido que ainda nem somos capazes de divisar), para em seu lugar fincar plantas de uma complexidade fisiológica, genética e biológica em geral que guarda, em relação à floresta, ordem de grandeza de uma gota de água em relação ao oceano.

Ficaremos mais ricos e mais desenvolvidos com essas novas culturas?... Du-vi-de-o-dó..., como dizíamos antes de só repetirmos a sintaxe da TV Globo. Mas, se ficarmos, não será a gente amazônica a beneficiada... Desapareceremos enquanto seres amazônicos, filhos da floresta e da água, últimos dos moicanos em uma cultura que não é o produto da mecânica de sempre: do desmatamento.

Por que não podemos erguer a cultura da floresta, não como uma etiqueta abstrata nem como um presente de deuses internacionais (mesmo que sejam guerreiros da paz verde)..., mas como uma opção inteligente do Homo Sapiens do século XXI?... Por que não podemos continuar tentando comandar a nossa vida, pelos nossos padrões, conforme o nosso sentido?...

Uma avaliação simples, mas nem por isso destituída de significado, calculou em 1,6 trilhão de dólares o valor dos minérios depositados no subsolo amazônico... Pelo padrão de exploração do ano passado, de US$ 3 bilhões de renda gerada pelos produtos de origem mineral, é riqueza capaz de garantir essa renda durante mais de 500 anos. Mas a biodiversidade é calculada, por esses mesmos analistas, em US$ 4 trilhões...

Por que, então, não dar uma trégua na expansão das frentes econômicas para prepararmos uma exploração racional e permanente desse tesouro produzido pela natureza amazônica? Por que vender o lauto almoço para ter o magro jantar? Por que não três boas refeições diárias, sem exaurir a dispensa?...

Dois anos atrás quase chorei também ao ver as fotos de manchas de barro e produto químico drenando para o Tapajós por seus afluentes e igarapés, sangrados a partir dos garimpos de ouro. Há meio século eles surgiram no alto rio, acima de Itaituba, como a redenção de Santarém. Garimpeiros enriquecidos apareceram na cidade a comprar terrenos e casas, a montar negócios, a gastar a rodo. O que sobreviveu dessas várias ondas de "bamburros"?... A soja é esse novo ouro?... E nós, somos o quê?...

Eu sou o caboclo que chora seu rio aprisionado e sua floresta derrubada.... Chora, se indigna, reage e escreve um texto como este, pedindo aos novos bwanas que cheguem-se a nós, sejam mais um de nós, mas como nós, que somos amazônidas...

E o que é ser amazônida?... Foi o que um valente advogado paranaense (futuro presidente da Funai) me perguntou em 1990..., quando participávamos, em Paris, da sessão do Tribunal Permanente dos Povos dedicada à Amazônia... "Somos todos brasileiros... Não existe esse negócio de amazônida"..., insistiu o advogado, que se aproximou de mim, aflito, quando usei essa expressão na minha exposição aos membros do tribunal... Ele temia que eu estivesse sugerindo (ou propondo diretamente) que éramos um país dentro do país...

E não somos mesmo?... Somos, sim!... Primeiro porque somos o Brasil tardio, a última região que se tornou brasileira no Império (e, ao tentar se integrar, durante a Cabanagem, foi reprimida brutalmente pelo governo do Rio de Janeiro)... E que permaneceu à parte até o advento da República, como se fosse um anexo nacional... E, segundo, porque somos uma região dominada pela floresta num país de bandeirantes, quase sinônimo de predador de gente e predador de mata... Somos a última possibilidade de civilização florestal... Não só no país, é bom acrescentar: na história do gênero humano!...

Queremos o Brasil aqui conosco, partilhando nossa rica história, tão ou mais exuberante do que a de qualquer outra região do país... Mas queremos que os brasileiros, reconhecendo nossa condição de amazônidas, queiram ser amazônidas como nós..., ao invés de combater esse nosso ethos... Prometemos ser também bons brasileiros, fazendo a fusão que criará um novo e glorioso capítulo na história da humanidade, sem rios violentados e árvores desbastadas... Um Brasil verdadeiramente amazônida e uma Amazônia genuinamente brasileira...

Por que não a utopia em Santarém?.. E em Belém..., Manaus..., Rio Branco..., Porto Velho..., Juruti?... Sem utopia..., a Amazônia será uma sucessão de fotos lancinantes na parede... E como elas doem!...

Por Lúcio Flávio Pinto

(FONTE : Adital)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

As sem-razões do amor...


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor...

(Carlos Drummond de Andrade, in “Amar se aprende amando”)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Belo na Beleza do Teu Olhar...

O mundo necessita de um ínfimo bem: pode ser a humildade no cotidiano... que se perdeu na escuridão da falta de democracia política e no conhecimento científico... Assim se reproduz nas relações!...

O mundo tem sede como nunca de respeito ao próximo no fazer do bem... E, no meu pensar: o bem está na beleza... Mas falar de beleza, no cenário atual, é tão doloroso e inquietante, pelo fato de ser um conceito abstrato, faz-nos considerar o belo como uma espécie de alento ou consolo, porém não é dessa beleza consumista do materialismo de que eu falo, para mim – não existe beleza em nenhuma forma de conflito: o belo não está nos escândalos; nas desconfianças; nos insultos; na guerra; no terrorismo; na fome e nenhuma forma de degradação humana e ambiental...

A infinita e fascinante palavra beleza está na alegria do existir: a nobreza do belo está na construção entre as diferenças; está na harmonia do devir... O bem é a beleza que fala no silêncio daquele que exprime o grito do abandono de Ser... E essa beleza de que eu falo: é crer no bem do amor ao outro... É acreditar na beleza do que está por vir na unidade das relações!...

Por isso, eu me deleito na beleza do teu Olhar, fico muito excitada quando sinto a serenidade no Belo da tua face próxima de meu sentir... Mas beleza eu percebo na incrível capacidade que tu tens de construir tua própria história e permitir que o Outro encontre o seu próprio caminho... Enfim: eu Amo o Belo da Beleza do teu jeito de Amar...

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Rosa...

Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta

Garganta, a santa às vezes troca o meu nome
E some, e some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista

Artista, é doida pela portela
Ói ela, ói ela, vestida de verde e rosa

A Rosa, A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do norte

Que sorte, que sorte, voltou toda sorridente
Veemente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara

Odara, gravou o meu nome na blusa
Abusa, me acusa, revista os bolsos da calça
A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa

Beleza na hora do come, deixa
Se queixa, a gueixa, que coisa mais amorosa
A Rosa, A Rosa e o meu projeto de vida

Bandida, cadê minha estrela-guia
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura, e jura, que um dia volta pra casa

Arrasa...

(Milton Nascimento)


Composição: Milton Nascimento e Chico Buarque

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Racionalidade e Liberdade...

Aristóteles caracterizou os humanos como seres racionais que falam. A dimensão anímica ou psíquica (psique = alma) dos humanos foi concebida pelo filósofo como um composto de duas partes: uma racional e a outra privada de razão. A primeira expressa-se pela atividade filosófica e matemática. A segunda, por seus elementos vegetativos e apetitivos. Isso permitiu a hieraquização dos seres vivos.

Pela segunda parte da alma, somos iguais a todos os outros animais. Movidos pelos institos primários (fome, sede, sono, reprodução), somos guiados pela necessidade de sobrevivência. Todos os seres vivos têm em comum um problema único a resolver: como sobreviver. Necessitamos de alimentos para aplacar nossa fome; de água para saciar a sede; dormir para descansar o organismo; nos reproduzir por meio da atividade sexual e assim perpetuar a espécie. Mas o que nos diferencia dos animais? Segundo Aristóteles, é a racionalidade. Nós somos capazes de planejar nossas ações, de realizar escolhas e julgá-las, terminando seu valor. Agimos acreditando que estamos fazendo o bem e, mesmo quando julgamos mal nossas ações, é sempre o bem que estabelece o critério de tal julgamento.

Assim, os seres humanos identificam-se como tais pelas distinções que são capazes de estabelecer com os outros animais e, por consguinte, com todo o reino da natureza. Os seres humanos definem-se pela capacidade de pensar, falar, trabalhar e amar. Ainda com Aristóteles, podemos identificar três coisas que controlam a ação: sensação, razão e desejo. A primeira não é principio para julgar a ação, pois também os outros animais possuem sensação, mas não participam da ação.

A ação é o movimento deliberativo, isto é, a origem da ação é a escolha. Os homens diferem dos demais animais porque são capazes de realizar escolhas. O desejo está na raíz dessas escolhas; a razão é o seu guia. Para Aristóteles, o desejo é a força motriz, o impulso gerador de todas as nossas ações. Mas essa força motriz deve seguir o curso traçado pela razão. A razão guia, conduz o desejo ao encontro de seu objetivo.

Realizar escolhas é elejer objetos para o desejo. O critério das escolhas é sempre racional. O motivo é sempre emocional, ou seja, impulsionados pelo desejo, movemo-nos em direção aos objetos. Nesse sentido, a capacidade racional de realizar escolhas permite-nos afirmar nossa condição de liberdade. O exercício da liberdade é a capacidade de escolher. Nisso os humanos podem se desviar do determinismo que rege o mundo da natureza. Os animais jamais podem escolher. Suas ações são determinadas pelo padrão genético de suas espécies. Quando olhamos um filhote de cachorro, por exemplo, somos capazes de dizer seu comportamento futuro. Ao olhar para um bebê, é impossível prever seu comportamento, suas condições e suas intenções.
É a escolha que define o caráter de um ser humano. Suas virtudes se manifestam nas escolhas que realiza no curso de sua condição mortal. Aqui se apresentam algumas questões éticas de grande relevãncia: Quais os critérios que norteam as escolhas que um homem faz em sua vida? Quais são os valores que pautam suas ações? Quais objetivos pretende atingir e com quais meios efetivará sua realização? Afirma-se que toda ação deve ser justa e boa. Mas, o que determina a justiça e a bondade? O que é ser justo? O que é ser bom?

No exercício da liberdade, cada um de nós se relaciona com outros indivíduos e dessas relações emerge a realidade social. Chamamos sociais nossas relações com os outros no mundo. A sociedade é uma construção história pautada numa lei fundamental: é proibido matar o semelhante. No entanto, numa rápida olhada em qualquer jornal, por exemplo, descobrimos que o assassinato é praticado das mais diferentes formas: guerras, fome, assaltos, atentados terroristas, etc. Vez ou outra, ouvimos dizer que essas ações são desumanas. Mas como, se foram praticadas por seres da mesma espécie, animais racionais?


(Texto retirado do site da revista VIDA SIMPLES)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tua Razão na minha Emoção...

Vem Agora... Eu estou aqui
Deixa a tua Razão fluir
Na minha Emoção
E, Toca-me

Meu Senhor!...
É Teu esse meu Coração
Vem, recebe hoje a minha Verdade
Quero ser Oferta Viva
No Altar do Teu Desejo

Minha Vida eu entrego
Em Tuas Mãos
Mesmo que não haja
Em mim: palavras pra dizer
Quando o Teu Olhar invadir
O meu Viver

Sente minha Vida
Com o Teu Passado
Vem me envolver
No Teu Presente...

Renova-me com Teu desejo
Faz o Teu querer
Para Eu renascer...
 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nasci Adorável e Encantadora, mas fui Civilizada...

     
Na maior parte do tempo eu não me divirto muito. O resto do tempo eu não me divirto nada. Pouca coisa me chama atenção, definir o que fazer do meu tempo me cansa. O mundo não me interessa, não quero saber do resto da humanidade. Preciso de espaço. Espaço para mim. Espaço para nada. Esse mesmo mundo divide-se em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranqüilo. As pessoas más aproveitam bem mais as horas em que estão acordadas. Logo, creio que se divertem.

Nasci adorável, encantadora e pura de coração. Aí fui civilizada. Quanto mais o tempo passa, mais tenho coragem de dizer a verdade e melhores ficam as minhas mentiras, e assim me encaixo no conceito de pessoa. Por livre espontânea pressão. A vida em mim é tão insistente que se me partirem, os pedaços continuarei estremecendo e se mexendo.

E me esgoto de explicações toda vez que encontro alguém que tenta me mostrar o quanto eu tenho que mudar para ser feliz. O quanto eu ainda tenho que fazer. Querem que eu aceite que há um motivo para tudo isso, para minha dor e manias.

Aqui, ali ou em qualquer lugar eu sei que somos sozinhos. Não passamos de uma piada de mau gosto de Deus e se você duvidar conte a Ele seus planos, isso o fará dar risadas.

Contudo, não me importo com o que deveria, não faz diferença. Sem rancor, sem relação, sem desculpas. Meu único arrependimento da vida é o de não ser outra pessoa para amar o mundo e não a ti....

(Laura Quaresma)

sábado, 26 de junho de 2010

Vida tão Leve... tão Tua..

Vida Leve e tão Breve,
Tão Tua!...

Ele, somente Ele
Que vem
E que passa...

Cá deixa sua graça
Com seu Encanto
No seu Canto...

Teu...
Somente Teu!...

Num Suspiro Leve,
Breve Ele retorna

Num Toque Mágico
Sinto-te Pele
Suave de Cetim!...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Rosa do Povo...

A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
E um anúncio, um chamado,
uma esperança embora frágil,
pranto infantil no berço?

Talvez apenas um ai de seresta,
quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta,
 um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre,
um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.

(Carlos Drummond de Andrade)

A ROSA DO POVO

"Uma poesia marcada pelo momento histórico." É assim que o crítico Antônio Houaiss qualifica a poesia de Carlos Drummond de Andrade reunida em A Rosa do Povo, livro escrito durante a II Guerra Mundial, publicado em 1945 e jamais reeditado isoladamente. Se a sua repercussão na época foi imensa, quase quarenta anos depois podemos dizer que ele não perdeu o vigor da emoção poética e a atualidade nervosa.

Saindo de novo a público, A Rosa do Povo propõe o mesmo debate inesgotável sobre a situação do artista no mundo e sua posição em face dos problemas políticos e sociais do seu tempo. Drummond tomou posição e manteve-se fiel a seu ideário, embora reconhecendo a falácia de ilusões que se misturavam a perenes interesses de justiça, liberdade e paz. Ao lado disso, o livro é de intenso lirismo existencial.

Este livro, publicado em 1945, embora recebesse boa acolhida do público e da crítica, não teve mais nenhuma edição autônoma. Só veio a sair, depois, incorporado a volumes de poesias completas do autor.

Quis a Record fazê-lo voltar à situação primitiva, como obra que, de certa maneira, reflete um "tempo", não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muitos de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de ser de quem os escreveu. Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo e está dito o necessário.

(FONTE: Internet, doc pdf)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Plágio do Vôo Livre...

E, uma borboleta voa a cada beijo teu,
Nesta noite serei dona do céu...

Como deus, mostrou teu coração vazio
Num abraço apertado
Abraçou-me como se abraça o Tempo...

E num beijo imperfeito
Roubou minha emoção de tantas
Noites mais...

Assim, partiu
Sem dizer-me o nome

E, no vôo da Borboleta,
Eu não sei quem te perdeu!...

Um Grande Exemplo do Verdadeiro Amor...

Como descobre Saramago?...

Por acaso, claro!.. Ela que se lembra de "estar a par de todas as novidades literárias" nunca tinha ouvido falar de José Saramago até uma certa tarde de 1986, em que foi com umas amigas a uma livraria: "Vi um livro chamado O Memorial do Convento, e achei curioso o título. Li uma página, li o arranque, comprei, fui para casa e devorei-o"...

Regressou à livraria de Sevilha e comprou todos os Saramagos traduzidos: "Quando acabei de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis foi uma comoção muito forte e decidi fazer o que não tinha feito nunca, senti a necessidade de seguir aquele itinerário lisboeta, senti que tinha a obrigação moral de dizer a José Saramago o que tinha experimentado com a obra... Um autor só acaba a sua obra quando o livro é lido e entendido. E eu queria dizer-lhe: completou-se o ciclo, li-o e entendi-o então, vim com o meu livro e com "O Livro do Desassossego do Pessoa". Aterrou na portela com o número de telefone de Saramago no bolso.

...os dois se encontram... estamos portanto em 1986, numa altura em que o romancista Saramago ainda está suficientemente disponível para ser ele a ir ter com a jornalista espanhola que lhe telefonou, entusiasmada. Aí vai ele a caminho do hotel Mundial, imprevidente, sem saber o que pode resultar de "tomar um café". Com Pilar: "Eu estava no quarto, desci, saí do elevador e vi um senhor alto... não sei porquê tinha imaginado um homem baixo...apertámos as mãos, apanhámos um taxi, fomos ao cemitério dos Prazeres, ao túmulo de Pessoa, lemos um fragmento de Pessoa, voltámos ao hotel num táxi e despedimo-nos à porta, com um aperto de mãos".

Não foi apenas isto, foi também o encontro entre dos marxistas convictos: "Falámos de política, do que se passava na Europa, e demo-nos conta de que estávamos no mesmo sítio, que os dois éramos marxistas, os dois éramos comunistas e aos dois nos interessava literatura". Pilar Del Rio lembra-se de ter regressado a casa "com uma estranha paz".

...se casam... na manhã seguinte Saramago telefonou-lhe para o hotel, a pedir-lhe a morada. "Eu regressei a Sevilha, ele enviou-me alguns livros... clássicos portugueses, enviei-lhe algumas críticas... eu não sabia nada da sua vida, nem ele da minha, porque não tínhamos falado das nossas vidinhas... e então, um dia, ele escreveu-me uma carta a dizer que, se as circunstâncias da minha vida o permitissem, iria visitar-me. E as circunstâncias da minha vida permitiam-no."

Um ano depois estavam juntos, no ano seguinte casaram, em Lisboa. "Não tive dúvida nenhuma em vir viver para Lisboa. Não tive nenhum problema de adaptação, quando vim para cá, vim para minha casa."

In Público, O folhetim de Pilar del Rio, 17 de Outubro de 1998

(FONTE: Internet doc PDF)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Provavelmente com Alegria... Descansa em Paz, Josè Saramago!...

                                                                              Foto blog Pastoret
A segunda escrita poética de José Saramago surge quatro anos após "Os Poemas Possíveis". São poemas de sombra e de luz, entrançados, de uma elaboração feita através do seu próprio avesso, simultaneamente de mar e de trevas.

Provavelmente Alegria
"Devagar, vou descendo entre corais.
Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas
De águas brancas, secretas, reunidas
Ao orvalho das rosas escondidas.

"Poemas na altura inovadores, marcados pelo amor dito-escrito em transparências breves, imprecisas, e uma certa amargura-tristeza bem portuguesas, na sua raiz claramente lírica. A paixão parece sobrepor-se à militância:

"Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro...

E o erotismo faz, de forma decidida, a sua aparição em verso:

"Teu corpo de terra e água

Onde a quilha do meu barco

Onde a relha do arado

Abrem rotas e caminho."

(Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

(FONTE: Caminho)

Palma com Palma, Adeus para Sempre mas deixe-nos com suas Palavras!...


José Saramago: Homem Livre e de Luz própria que iluminou nossas mentes com as mais sublimes irreverentes formas da linguagem escrita... jamais e jamais haverá sua morte, pois as Sementes e os Grãos deixados nas raras e belas palavras escritas por ele, viverá para sempre em nossos corações e com as Futuras gerações...

"Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa,
o que as palavras unem
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade"

(José Jaramago)

(FONTE: Caderno de Arte e Literatura)

Na Ilha por Vezes Habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites, manhãs e madrugadas
em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra
e apertamo-la nas mãos. Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
 o contorno, vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra
onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

(José Saramago)

(FONTE: Caderno de Arte e Literatura)

Angel...

Passa todo seu tempo esperando
Por aquela segunda chance,
Por uma oportunidade que deixaria tudo bem
Sempre há um motivo
Para não se sentir bem o suficiente.
E é difícil no fim do dia,
Eu preciso de alguma distração.
Oh, belo descanso
A lembrança vaza das minhas veias...
Deixe-me ficar vazia
E sem peso e talvez
Eu encontrarei alguma paz esta noite.

Nos braços de um anjo,
Voar para longe daqui,
Deste escuro e frio quarto de hotel
E da imensidão que você teme.
Você é arrancado das ruínas
De seu devaneio silencioso.
Você está nos braços de um anjo,
Que você encontre algum conforto lá

Tão cansado de andar na linha,
E para todo lugar que você se vira
Existem abutres e ladrões nas suas costas,
E a tempestade continua se retorcendo.
Você continua construindo a mentira
Que você inventa por causa de tudo que você não tem
Não faz nenhuma diferença
Escapar uma última vez.
É mais fácil acreditar nesta doce loucura, oh
Esta gloriosa tristeza que me deixa de joelhos

Você está nos braços de um anjo.
Que você encontre algum conforto aí.


(Sarah McLachlan )

Fonte e tradução: Vagalume

quarta-feira, 16 de junho de 2010

No Submarino do Tempo...

                                          Ilustração rio_amazonas - foto de Aquilino Cesar
As tuas palavras disseram-me que viver é um Jogo que somente se joga à dois!... Desde a infância eu percebi a importância dos relacionamentos, todavia não consegui sucesso em nenhum... Bem, não sei ao certo: se é Trilha, Estrada ou, até mesmo, as Correntezas de nossas Vidas emergindo com o Submarino que submergiu a história do nosso Passado, mas foram tempos vividos e vivenciados com muito carinho e dedicação. Ali fui iniciada na Razão, fiz meus primeiros contatos com as Verdades Históricas..., ganhei experiências e conhecimento que me possibilitaram iniciar um diálogo: interpessoal, interétnico, temporal e multicultural!...

Olá, por favor, ouça-me com o Teu Olhar: estou eu aqui, às vezes desistindo e sempre resistindo, mas ainda existo: eis a essência do meu ser que me impossibilita qualquer encontro consumista... Depois que eu li o trecho a seguir fiquei desesperada: “Por agora também fico por aqui, só na expectativa que algum submarino suba um dos rios da Amazônia para afundar as tuas infundadas suspeitas”... Ai! Ai!... Dói muito essa tua última missiva, porque despertou em mim mais suspeitas... Agora muito bem fundamentadas: suspeito que tu sejas àquele que penetrou as minhas entranhas; atingiu os segredos do meu ser e desvendou todos os meus mistérios, sinto-me presa fácil de tuas mãos nas tuas palavras... Liberta-me, por favor!...

Aqui na Solidão e no Silêncio dessa Floresta, estou presa e envolvida nessa imensidão verde: daí fiquei pensando em Ti e no desejo que consome meu corpo, lembrei que as tramas do Tempo que nos aproximaram: se entrelaçaram, se fragmentaram e secularmente foram ignoradas, porém abarcaram todas as possibilidades dos encontros que constroem a vida. Nós existimos na maioria desses tempos... Tempos que em alguns momentos existiram tu e eu; e o outro, eu em ti, e todos os outros em nos dois. Foi quando eu compreendi mais uma vez que a linguagem escrita é uma pele, então passei minha Língua em Ti e senti que a única palavra que exige a verdade é esta: a linguagem do Templo Sagrado: Teu Corpo!... Por isso, eu sinto e existo para te consumir em desejos e me embeber na solidão de um Mundo-sem-Fim...


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Arte Poética...

                                                           Foto de gth grade`a: cachoeira da floresta Amazônica

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
De los días del hombre y de sus años,
Convertir el ultraje de los años
En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
Un triste oro, tal es la poesía
Que es inmortal y pobre. La poesía
Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo;
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
Lloró de amor al divisar su Itaca
Verde y humilde. El arte es esa Itaca
De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
Que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.

Jorge Luis Borges (1960)

(FONTE: Blog golempoem)

domingo, 6 de junho de 2010

Robin Hood - Emoção e suspense

Romance e relações sociopolíticas revigoram a trama de Ridley Scott...

Quase todas as versões artísticas da lenda de Robin Hood usam, como pano de fundo para as peripécias do herói, o período em que o rei inglês Ricardo Coração-de-Leão esteve sequestrado, e a Inglaterra tinha como regente o príncipe João (que viria a ser apelidado, pejorativamente, de João-Sem-Terra). Robin Hood, de Ridley Scott, situa a lenda um pouco depois, quando a morte de Ricardo levou João ao trono. A modificação sutil carrega um discurso político.
                       
Nas versões mais comuns, temos a Inglaterra de Ricardo como uma espécie de paraíso da justiça, interrompido pela tirania de João, mas que poderia ser reconquistado com o retorno do rei. Em Robin Hood, encontramos uma sociedade que pode escolher entre o autoritarismo mais brando e heróico de Ricardo e o autoritarismo mais violento e covarde de João – e a única alternativa aos dois é a imposição de limites à coroa inglesa. O filme é uma fábula sobre essa alternativa, que os livros de história conhecem como a Carta Magna, a declaração das “liberdades” dos barões ingleses e das obrigações e limites da monarquia, que até hoje é a base da constituição britânica.
Scott não faz um filme histórico, mas ficção que se apropria de alguns fatos e personagens históricos. Não quer nos contar a história da Idade Média, mas refletir sobre a nossa. As “liberdades” de que a Carta Magna tratava eram, na essência, privilégios dos barões. Robin Hood fala de direitos como os de hoje. Comete fraude histórica – aquelas “liberdades” medievais são uma espécie de avós dos nossos direitos fundamentais, que antes de nascerem tiveram também, como antepassados, as liberdades burguesas das revoluções do século 18. Mas comete essa fraude, constrói sua ficção numa verdadeira e emocionante aula de boa política.
Robin Hood contrapõe duas visões de mundo radicalmente distintas. Numa, a dos reis, a sociedade é hierarquizada, a riqueza se funda na exploração do trabalho alheio, as mudanças nas relações de poder só ocorrem por meio da violência. Na outra, a do povo, as lideranças ocorrem pela nobreza e a competência das pessoas, e não pelo nascimento ou a posição social; a riqueza vem do trabalho que alia pessoas de todas as classes sociais, nobres, clérigos, plebeus; e a mudança na relação de poder é inspirada num ideal de justiça e realizada na lei. Pode ser utopia; mas nos tempos de divisão que vivemos hoje, assistir à possibilidade, mesmo que ficcional, desta utopia produz um sentimento redentor. 

E o melhor é que Ridley Scott constrói seu bom discurso político com bom cinema. A batalha final, se é quase uma impossibilidade militar (um bom estrategista, como Felipe Augusto, rei de França, nunca desembarcaria suas tropas numa praia cercada de falésias, onde seus soldados seriam presas fáceis para as flechas inimigas) e uma inverdade histórica (na verdade, foi João-sem-terra quem tentou um catastrófico desembarque na França), é um deslumbramento cinematográfico – desde O senhor dos anéis que não víamos cenas de batalha tão bem filmadas, editadas, sonorizadas. A história de amor entre Robin (Russell Crowe) e Marion (Cate Blanchett) é de linhagem rara, herdeiras de Beatrice e Benedek no Muito barulho por nada de Shakespeare – um romance maduro, marcado pela rispidez e o sarcasmo antes de desabrochar. No meio de tudo isso, e de paisagens magníficas, fotografia deslumbrante e reconstituição de época eficiente, Robin Hood oferece momentos de grande emoção e suspense.

(FONTE: Divirta-se)